Psicologia Ambiental

 

        Desde 1750, a população mundial tem crescido de forma acelerada, tendo nos últimos cinquenta anos um aumento de 2,5 bilhões de habitantes para 6 bilhões. O represamento dos rios, o uso da água, o consumo de fertilizantes, a população urbana, o consumo de papel e a quantidade de veículos a motor aumentaram expressivamente sem indícios de que haverá uma inversão desse crescimento. Em paralelo, a natureza está mudando com o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio, a quantidade de desastres naturais, a destruição acelerada das florestas tropicais e das regiões florestais e a extinção de uma variedade de espécies. Enfim, essas mudanças nas condições ambientais indicam que as atividades humanas podem promover mudanças bruscas no sistema planetário, com consequências ainda vagas (BERTÉ, 2009).

        Diante da crise ambiental que hoje se tem notícia, vários setores sociais estão se mobilizando, possibilitando uma maior conscientização ambiental e fazendo com que as pessoas se preocupem mais com a preservação do meio ambiente. Lima (1998, p. 139-154) afirma que:

Entre as décadas de 70 e 80, tornou-se frequente a criação de secretarias, ministérios, agências especializadas, organismos plurinacionais e partidos políticos envolvidos com a questão ambiental. O setor privado tem se preocupado em introduzir em seus produtos e estratégias mercadológicas o "apelo verde", mesmo que de maneira enganadora e superficial, porque já detectou na opinião pública e consumidora o interesse por esta nova tendência. A preocupação ecológica se faz presente também na sociedade civil e setores religiosos, cresce o número de publicações ou de seções ecológicas em jornais, revistas e demais meios. As Universidades, apesar da dificuldade em superar suas barreiras disciplinares, introduzem o debate ambiental, ampliam o leque de suas possíveis abordagens e discutem propostas transdisciplinares.

        É bastante adequado considerar que a ação humana pode fazer a diferença, podendo mudar a maneira de pensar o mundo, sendo necessário assumir riscos consideráveis em tentar modificar o estado atual e em defender uma alteração significativa na maneira pela qual as coisas são feitas. Quando os indivíduos atuam, demonstram interesses dos setores da sociedade em que são participantes e até podem superar suas origens passando a representar interesses dos menos sucedidos, social, economica e politicamente. Segundo Moran (2008), uma característica da ação humana parece ser a necessidade de acumular informações por um período de tempo, criando uma preocupação em certos setores e em ação por parte de alguns indivíduos, que associada a um evento importante, resulta em mobilização muito rápida e atuação efetiva, como no caso da adoção imediata do Protocolo de Montreal para redução do uso dos clorofluorcarbonetos (CFCs), responsáveis pela destruição da camada de ozônio.

        O homem está a todo o momento em constante interação com o ambiente que o cerca, seja ele organizacional, educacional, urbano ou ecológico e por ser a psicologia a ciência que tem como objeto de estudo o comportamento, por que não uma subárea para investigar o homem e o ambiente, com uma atenção especial a interação entre os dois? Portanto, pouco difundida no Brasil, mas de grande relevância, Moser (1998, p.121) diz que a:

        Psicologia Ambiental estuda a pessoa em seu contexto, tendo como tema central as "inter-relações" – e não somente as relações – entre a pessoa e o meio ambiente físico e social.

        A Psicologia Ambiental tem por objetivo analisar as formas como as condições ambientais afetam as capacidades cognitivas, mobilizando os comportamentos sociais que causam impacto à saúde mental dos indivíduos, além de contribuir para análise das percepções e interpretações das pessoas sobre o meio ambiente. Ela pode trabalhar com outras áreas de conhecimento de forma interdisciplinar, como sociologia e antropologia urbana, ergonomia, desenho industrial, paisagismo, engenharia florestal, biologia, medicina, arquitetura, urbanismo e geografia, entre outras. E a sua abordagem metodológica, vai ser direcionada através do problema, sendo muitos deles beneficiados por uma pluralidade de métodos como observacionais, experimentais, entre outros. Utiliza o modelo pesquisa-ação, na qual o pesquisador tenta contribuir para teoria e prática na sua área (GÜNTHER. e ROZESTRATEN, 2004).

        Definir a Psicologia Ambiental como um campo de estudos dentro da Psicologia,é possibilitar a compreensão de como o indivíduo reage às condições do ambiente; poder avaliar e perceber que os espaços físicos também vão influenciar na maneira de atuar das pessoas, pois se interage diferentemente dependendo do local; entender conceitos como:espaço pessoal, dimensão temporal ou projeção no futuro e referência ao passado, à história; poder também ver como o indivíduo se comporta no ambiente em que vive com o surgimento de doenças, enfim, perceber que o psicólogo pode atuar em vários campos e de forma multidisciplinar, no sentido em que os problemas ambientais são tão complexos que costumam exigir uma abordagem a partir de diferentes visões, necessitando uma colaboração interdisciplinar (WIESENFELD, 2005).

        Descrevendo o processo histórico da Psicologia Ambiental, definindo a disciplina e seus objetos de estudo e apresentando possibilidades de atuação do psicólogo na área, este estudo permitirá o conhecimento de um "novo" campo da Psicologia ainda pouco disseminado na academia, mas que diante das atuais crises ambientais torna-se essencial para entender e melhorar os impactos da relação do homem com o ambiente, sendo ele natural ou construído. Contribuirá para a Psicologia por ser a ciência que estuda o comportamento humano, permitindo uma compreensão dos processos de conscientização ambiental, a percepção das pessoas frente ao meio ambiente e as atitudes relacionadas à preservação ou degradação diante do cenário atual.

        A Psicologia Ambiental é também uma grande responsável para a melhoria tanto na edificação quanto na conservação dos espaços, beneficiando o convívio entre as pessoas, seja no ambiente familiar, educacional, organizacional ou urbano, pois conforme Morval (2007), o ambiente além de ser o cenário das nossas vidas, representa um estímulo abarcante e ao mesmo tempo avassalador, mas também insondável e misterioso, pois ainda temos dele uma representação que parece ser, em muitos aspectos, confusa e subjetiva.

        Realizou-se um estudo bibliográfico, que segundo Demo (2000) é destinado a reconstruir teorias, conceitos, ideias, ideologias aprimorando fundamentos teóricos e/ou práticas, já que o assunto abordado não pode ser mensurado. A partir de palavras-chave como Psicologia; Psicologia Ambiental e Ambiente, livros, textos, artigos e periódicos científicos considerados pertinentes foram selecionados, de modo sistemático e reconstrutivo, encontrados em fontes de dados e pesquisas como Scielo, o Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de Brasília, REPALA -Rede de Psicologia Ambiental Latino-Americana e o Grupo de Estudos Inter-Ações Pessoa-Ambiente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

        Buscou-se as referências bibliográficas indicadas nos documentos encontrados, dando um melhor embasamento na pesquisa, enfatizando conceitos e história da Psicologia Ambiental. Após dados coletados com um olhar crítico, a fim de evitar informações confusas que venham prejudicar a pesquisa, construiu-se um quadro conceitual oportunizando a visualização do que os diversos autores dizem sobre a Psicologia Ambiental, distinguindo diferenças e semelhanças sobre sua definição e objeto de estudo.

 

Um Pouco de História da Psicologia Ambiental

 

        Psicologia Ecológica ou Psicologia Ambiental? Roger Garlock Barker, aluno, colaborador e assistente de pesquisa de Kurt Lewin, desenvolveu a Psicologia Ecológica, após perceber que havia algo além do modelo de espaço vital de Lewin – onde o ambiente é aceito como campo subjetivo. Interessado em pesquisar sobre a organização dos acontecimentos públicos da vida diária, Barker e seus colaboradores observaram crianças em suas condições naturais, concluindo que as ações eram influenciadas pelos contextos, ou seja, o comportamento era diferente em cada contexto, denominando behavior setting. Portanto, o termo Psicologia Ecológica em países de idioma germânico se refere atualmente, ao modelo barkeriano com seus avanços, e o mesmo que nos países de idioma alemão, o correspondente a Psicologia Ambiental anglo-americana (CARNEIRO e BINDÉ, 1997; PINHEIRO, 1997).

        Em 1943, foi a primeira vez que a terminação Psicologia Ambiental foi utilizada, por Egon Brunswik, psicólogo e PhD pela Universidade de Viena, que realizou pesquisa empírica sobre percepção, e também trouxe a sua abordagem probabilística para tolerar os problemas da percepção interpessoal, raciocínio, aprendizagem e psicologia clínica; ele se importava com estudos na área da psicologia sobre representatividade do design (ALVES e BASSANI, 2008). Sendo ele também responsável pelo conceito de validação ecológica, ou seja, um problema só é válido para ser pesquisado se tiver significância na vida cotidiana dos indivíduos estudados (GÜNTHER, PINHEIRO e GUZZO, 2004).

        Na década de 70 do século passado, surgem pesquisas sobre relações entre seres humanos, ambiente físico e problemas ambientais, mas ainda não consideravam a influência mútua entre pessoa e ambiente, é quando a Psicologia Ambiental ganha o caráter de disciplina. Na década de 80, surgem os cursos universitários, firmando a área e, na década de 90, a Psicologia Ambiental passa por uma reestruturação averiguando formas de melhoria da qualidade de vida das pessoas em seu ambiente sócio-físico (FERREIRA, 2004; FREIRE e VIEIRA, 2006). Segundo Moser (2005), a Psicologia Ambiental criou conceitos como cognição ambiental, mapeamento mental, história residencial, identidade ambiental, percepção de aglomeração, etc. e, por isso, é uma disciplina e não apenas um ramo da Psicologia.

        Possuindo uma"dupla-personalidade": Psicologia e Ambiente, a Psicologia Ambiental formou-se a partir de duas grandes raízes teóricas. A externa, formada por disciplinas distantes da Psicologia: Arquitetura e Planejamento Ambiental, Geografia e Ciências Bio/Ecológicas e também uma crescente preocupação das ciências naturais pelos problemas ambientais e o papel desempenhado pelo ser humano nesse contexto. E, a interna que surgiu a partir do interesse de compreender melhor o inter-relacionamento entre processos psicológicos e aspectos do ambiente, envolvendo a Psicologia da Percepção (Gestalt) e a Psicologia Social (PINHEIRO, 1997; GUNTHER e ROZESTRATEN, 2004). E, ainda segundo Gunther e Rozestraten (2004, p.4):

 

(...) é importante salientar que um dos aspectos que distingue a psicologia ambiental das suas raízes, e que constitui um dos elos entre suas vertentes: a atenção ao lugar, i.e., a localização do indivíduo diante dos elementos do seu ambiente.

 

        Os primeiros estudos realizados pela Psicologia Ambiental abarcaram o tema da degradação ambiental que se acreditava ter uma relação com o crescimento populacional e o planejamento de ambientes construídos, pois após a II Guerra Mundial, vários países se preocuparam com a reconstrução de espaços de habitação e convivência social, inclusive setores psiquiátricos de hospitais, sendo os psicólogos solicitados por engenheiros e arquitetos. Este foi o primeiro momento em que se verifica uma preocupação pelo bem estar das pessoas em relação ao ambiente que se ocupa (FERREIRA, 2004; RIVLIN, 2003).

        Autores nos Estados Unidos deram contribuições consideráveis para o firmamento da Psicologia Ambiental como Irwin Altman um dos precursores da pesquisa ambiental que desenvolveu a teoria da regulação da intimidade; Daniel Stokols ponderou o impacto da superpopulação em um espaço restrito sobre as atitudes individuais; Kenneth Craik propôs teorias para abordar e compreender as relações entre personalidade e ambiente; J. Russel e L. Ward fizeram o inventário dos progressos no domínio da psicologia ambiental na Annual Review of Psychology (Revisão Anual de Psicologia). Na França, A. Moles desenvolveu conceito de espaço; Perla Serfaty-Garzon contribuiu com a compreensão do espaço privado e público e espaço íntimo da casa; Gustave-Nicolas Eischer propôs uma análise do espaço industrial e avaliação ambiental do espaço de trabalho (MORVAL, 2007).

        O desenvolvimento da Psicologia Ambiental em território brasileiro ocorre em paralelo a eventos em outros países, devido a formação de muitos profissionais terem sido no exterior e/ou manter contato com instituições através de congressos internacionais. Foi criada em 2001 a Rede de Psicologia Ambiental Latino-Americana (REPALA), composta por um site (http://www.cchla.ufrn.br/repala/home.html) e uma lista de discussão reunindo profissionais e estudantes de diversas áreas e vários países com objetivo de trocar informações (PINHEIRO, 2003).

        No Brasil, em 1990 no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília foi utilizada pela primeira vez a denominação Laboratório de Psicologia Ambiental (LPA), coordenado atualmente pelo Prof. Hartmut Günther, voltado para estudos sobre técnicas e métodos de pesquisa, tendo como campo principal a cidade de Brasília. Foi criado o Laboratório de Psicologia Sócio-Ambiental e Intervenção da USP (LAPSI) e, junto com a International Association People-Environment Studies (Associação Internacional para Estudos Pessoa-Ambiente) -IAPS, realizaram encontros com vários representantes da área e afins, possibilitando apresentação de trabalhos, contribuindo para a divulgação do campo de estudos em território nacional.

        Após este relato histórico, é necessário delimitar conceitualmente a Psicologia Ambiental mencionando sobre os seus objetos de estudo enquanto disciplina que determinaram o campo de atuação para psicólogos, já que a complexidade dos problemas ambientais exige muitas vezes uma colaboração de outras disciplinas, trabalhando de forma multidisciplinar.

 

Edlane Leal dos Santos - Graduando em Psicologia – Centro Universitário Jorge Amado, Salvador – Ba, 2011.

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Jorge Amado como pré-requisito parcial para a obtenção do grau de psicólogo, sob a orientação do Prof. Anderson Almeida Chalhub

Fonte: Psicologado - Artigos de Psicologia


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